Professor Miguel Ângelo se aposenta após 42 anos de dedicação à docência na Ufam

O mundo pode ser melhor com o que dispomos hoje em ciência, educação e respeito à vida”, essa é a máxima dita pelo professor Miguel Ângelo da Silva e que o acompanha direcionando as ações relacionais mais solidárias pautadas na ética durante o longo tempo de exercício pedagógico.

Aposentado após 42 de dedicação e de compromisso com a Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Federal do Amazonas (FCF/Ufam), o docente, mineiro de nascença, construiu uma carreira acadêmica calcada na transparência das atividades desenvolvidas e na solidez do espírito inovador em tudo o que realizou na FCF, sem dúvida, uma unidade altamente qualificada em pesquisa farmacêutica.   

Inovação

Com espírito inovador agregado às ações, o docente foi o primeiro a ministrar disciplinas relacionadas à homeopatia, rompendo com o conhecimento tradicional e apontando para medicinas alternativas, o que despertou o interesse de alunos da área médica da Ufam. Criada pelo médico Samuel Hahnemann, a homeopatia é um tipo de terapia de tratamento liberada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma medicina alternativa e complementar para quase todos os tipos de doenças físicas ou psicológicas.  

Isso levou os docentes, segundo Miguel Ângelo, a terem olhares divergentes do tradicional conhecimento que sobrevive em países asiáticos como a Índia e a China, onde muito se faz uso da Medicina Alternativa.  Para ele, a aplicação dessa medicina preventiva chega a desafogar os prontos socorros, evitando assim, a internação. O estado de doença não necessita de intoxicação com muitos medicamentos, disse o pesquisador, que acredita que o ineditismo na sua área de conhecimento permitiu comemorar a decisão do Conselho Federal de Farmácia (CFF) para a inclusão da obrigatoriedade de Medicinas Alternativas na grade curricular dos cursos de Farmácia.

Em quase todos os eventos promovidos pela FCF, o professor Miguel Ângelo ganhou destaque pela sua atuação, sempre preocupado em trazer profissionais de ponta da pesquisa avançada na Área da Farmácia. Dessa forma, ele acredita que equaliza temáticas outras nos diversos eventos acadêmicos promovidos direta ou indiretamente por ele, e isso fez com que o corpo discente atualizasse sua expertise em novas práticas metodológicas. A gratuidade de cursos de Lato Sensu na FCF é uma reivindicação antiga do professor. Sobre isso, ele acredita que devem ser obrigatórias, inclusive o oferecimento das especializações “Classificação Botânica Medicinais” e  “Homeopatia”. 

Trajetória de sucesso

Em março de 1974, o professor Miguel Ângelo começou a trabalhar na Universidade, mas efetivamente, só em agosto do mesmo ano saiu a portaria que o nomeou docente da Instituição. Em 1º de agosto de 2019, ele se aposentou, depois de 45 anos de dedicação e compromisso à carreira. Ele relembra que seu primeiro contato se deu como aluno de Farmácia, no entanto, completou a formação na habilitação voltada para a Indústria Farmacêutica pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM/RS), em 1973. Apesar de ter nascido no estado de Minas Gerais, o professor contou uma curiosidade: ao chegar naquele estado sulista, ficou conhecido por um tempo como “o amazonense”.

Ao falar de sua escolha em morar na região Amazônica, em especial, na cidade de Manaus, o docente disse que sempre foi fascinado pela Floresta Amazônica e relembrou as grandes expedições do século XX, destacando a figura do Coronel Percy Harrison Fawcett, arqueólogo e explorador britânico que desapareceu ao organizar uma expedição para procurar uma civilização perdida na Serra do Roncador, em Barra das Garças, Mato Grosso (MT). A história desperto no seu imaginário questões relacionadas à Amazônia.

Associado a esse fato, o professor disse que outra circunstância contribuiu para sua vinda ao Amazonas, quando recebeu convite para estudar em Manaus. À época, as dificuldades de transporte aéreo eram enormes, a exemplo do voo direto para Manaus. “Saindo de São Paulo, o avião semi jato tinha que fazer escala em Porto Velho, para depois de um dia chegar à capital amazonense. Sob forte temporal, a aeronave pousou no aeroporto de Ponta Pelada. Tendo sido bem acolhido na cidade, o jovem ficou hospedado na Rua Ramos Ferreira.

Durante os anos 70, Manaus estava crescendo,  cidade era pequena, em estado “inacabado” onde os bairros como Japiim e Parque 10 estavam se estruturando.  Concursado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF/AM), em que foi classificado entre os melhores, preferiu trabalhar no período noturno para que não atrapalhar suas atividades acadêmicas. A estada não durou muito tempo, pois ele seguiu para Santa Maria (RS) para complementar a Habilitação. Ao retornar ao Amazonas, Miguel Ângelo trabalhou na Cervejaria Brahma por pouco período, quanto recebeu convite para trabalhar na Ufam. Em 1977, concluiu o mestrado em Controle de Medicamentos pela UFSM/RS.

Experiências pedagógicas

Naquele período, os anos de 1970, a Faculdade de Ciências Farmacêuticas estava em processo de elaboração dos primeiros projetos de pesquisa, permitindo, em pouco tempo, formar os primeiros mestres da Ufam. Segundo ele, apesar da titulação que o corpo docente adquiriu nos últimos anos, ele não desvaloriza os antigos professores. Em seu modo de ver, não há demérito, até porque eles atuaram sempre com responsabilidade e dedicação. "Exemplo disso é a professora aposentada Maria Lúcia Alves de Carvalho, que  tem muita historia para contar, era uma referência na Faculdade", afirma.

Após anos em sala de aula, o professor Miguel Ângelo foi convocado pelo Exército Brasileiro. Ele conta que, ao ingressar no Programa de Pós-Graduação em Botânica, por meio do Instituto Nacional de Pesquisa na Amazônia (Inpa), em 1980, recebeu convocação para cumprir o serviço militar. Apesar de possuir documentação de dispensa pelo excesso de contingente, o professor Miguel Ângelo teve que se afastar do Programa, mesmo depois de ter completado os créditos obrigatórios, já na última fase de entrega de tese para defesa do doutorado. Contudo, o serviço não o impossibilitou de ministrar aulas na Faculdade pelo período de um ano.

Tese

No campo da pesquisa, o professor Miguel Ângelo, defendeu em 2014, por meio do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da Ufam, defendeu a tese “As limitações institucionais de inserção da gestão biotecnológica na produção de polpa de açaí”, tendo a orientação do professor Jamal da Silva Chaar e co-orientação do professor Luís Roberto Coelho Nascimento. O trabalho objetivou avaliar a organização e a gestão da produção da polpa de açaí do pequeno produtor familiar da zona urbana de Manaus, na perspectiva econômica tanto da gestão biotecnológica quanto da institucional.

Para o professor, ao longo de décadas, o pequeno produtor familiar vem exercendo essa atividade sem a preocupação com o sistema de organização de gestão produtiva. Por isso, o estado produtivo no Amazonas ainda padece pela baixa produtividade e pouca absorção tecnológica. A demanda interna e externa da polpa de açaí justifica um esforço educacional que, partindo de Instituições de Ciências e Tecnologias (ICTs) locais e do governo, podem capacitar o pequeno produtor familiar e, consequentemente, aumentar o tempo de vida na prateleira e manter o seu negócio competitivo, conservando também propriedades nutricionais e sensoriais da polpa.

Os padrões de qualidade, em especial de sanidade para o consumidor, variam entre os países. Com a integração dos mercados, passará a  ser necessária a difusão de padrões, de modo facilitar o trânsito dos produtos e serviços. Nesse sentido, para conhecer o elo da pesquisa, buscou-se uma metodologia qualitativa baseada em coletas de dados e na observação não-participante, cuja técnica empregada envolveu a estatística  básica da observação e da interpretação das práticas e atitudes para configurar, no diagrama, as causas secundárias que incidem sobre os fatores determinantes, produzindo um efeito.

O professor questiona e traz um grande desafio a partir da conclusão de que não existe nada dentro da cadeira produtiva que não possa ter mercado. Mas, como capacitar os produtores familiares em que os programas voltados para essa questão não tem continuidade técnica, fazendo com que o  problema continue a existir? Na conclusão, o docente concluiu que o pequeno produtor familiar de açaí apresenta um desenho organizacional e de gestão deficiente na elaboração e na comercialização  da polpa do açaí in natura, comprometendo sua competitividade local e os requisitos higiênicos sanitários que põem em risco a saúde do consumidor.   

 

 

Texto: Sebastião de Oliveira/Ascom Ufam